Faca na Bota

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Este texto nasceu da empatia e do apoio à luta feminista contra o apagamento das mulheres e as amarras impostas pelo patriarcado.

Me ensinaram cedo:

Baixa o tom.
Baixa o tom.
Baixa o tom.

Sorria.
Sorria.
Sorria.

Enquanto eles
assinavam paredes,
assinavam livros,
assinavam meu silêncio.

Meu nome,
em giz.

O deles,
em pedra.
Em bronze.
Em moldura.

Eu sinto
o gosto de desaparecer.

Desaparecer numa reunião.
Desaparecer numa galeria.
Desaparecer numa mesa comprida
onde alguém repete tua voz
em tom alto.

E todos escutam.
Escutam.

Minha voz cansou
de pedir licença.

Minha mente cansou
de caber pequena.
Pequena.

Mas meu corpo,
ah, meu corpo,
esse nunca coube.

A bota não pisa só pescoço.

Pisa tela.
Pisa poema.
Pisa currículo.
Pisa nome.

Não quero discurso.
Quero meu nome
dito alto.
Alto.

Faca ardendo na mão.
Ardendo.

Bicho solto no peito.

Mesmo vendada,
continuo abrindo a carne.
No escuro.

Continua ardendo.

Faca na bota.
Faca na bota.
Faca.
Na.
Bota.