Fogo no Fundo do Rio

O vento sul veio sacudindo janelas e entortando postes.
Ele diz tudo o que não foi dito por nós.
Ele invade a sala sem pedir licença,
deixando sobre a mesa mensagens da rua.

A chuva escreve planetas nos vidros.
O escorpião repousa nas tuas costas.
Hoje o rio está aquecido.
Ele guarda brasas no fundo das águas.

Porto Alegre estremece sob casacos.
O asfalto molhado é o meu melhor espelho.
Uma flecha de vento atravessa a cidade.
Guardas no corpo um animal antigo.

O silêncio agora traz um novo ritmo.
Os prédios acendem após a tempestade.
A chama cresce no fundo do rio.
E a cidade aquece-se na sua margem.