As Coisas que Permanecem
O casaco cinza permanece na cadeira.
Ele preserva o silêncio sob a lua.
E, aos poucos, vai perdendo sua cor.
Fica um espaço sobrando na gaveta.
A velha camiseta foi lavada,
cedendo lugar a novos cheiros.
Com o tempo, o vento para
de pedir passagem
e passa a morar
nas curvas das velhas ruas.
Numa xícara sobre a mesa.
Em alguma música que lembra uma dança.
E no som do nome quase dito no cansaço.
Algumas feridas envelhecem com a gente.
O sangue estanca, cicatriza, silencia.
Em noites frias, ainda doem um pouco.
Mas ficam quietas na varanda da alma,
como velhos conhecidos
que ninguém tem coragem de expulsar.