O Inverno Leva Algo

Um deles segurava o copo como quem aquece
algo mais do que as mãos.
Havia um cheiro de gasolina e chuva.
E o posto vazio num silêncio de lâmpadas cansadas.

A água distorcia o rastro dos faróis,
luzes borradas contra o breu.
O frio subia pelas mangas,
esmagando os ombros, pesando o corpo.

Um ônibus passou rápido,
colorindo as poças de azul
e dando ritmo à avenida.
Um pedaço da conversa se foi com ele.

O vidro refletiu uma chama nos lábios.
As jaquetas velhas guardam cheiro de fumaça.
O inverno, sempre,
leva algo consigo.