O Rio que Queima a Noite

Um animal desperta nos teus ombros firmes.
Conhece a marca das minhas mãos.
Vigia as estrelas enquanto durmo,
de olhos abertos diante do mar.

Um rio de fogo transborda teu ventre.
Terra molhada do temporal.
Sangue na seda, cheiro de fumo.
Um passo de dança parado no ar.

O rio queima cidades por onde passamos.
Janelas de hotéis exalam olor.
Um escorpião repousa no dorso da noite.
O concreto armado se torce em silêncio.

Carrego no sangue o veneno do bicho,
que evapora da pele em fumaça no ar.
Atravesso a neblina de olhos abertos.
A lágrima escorre da pele em suor.

Leva contigo um pedaço de música.
O quadro transpira o som de um tambor.
Escuta os passos de quem dorme acordado,
o silêncio dançando na sala de estar.